A supergigante vermelha de Órion pode fazer parte de um sistema binário. Uma estrela que permaneceu escondida por décadas foi finalmente registrada por um dos maiores telescópios do mundo.
Durante décadas, Betelgeuse parecia ser uma estrela solitária no ombro da constelação de Órion. Agora, astrônomos podem ter descoberto que essa impressão estava errada.
Observações realizadas com o Very Large Telescope (VLT), no Chile, revelaram uma pequena fonte de luz muito próxima de Betelgeuse, exatamente na região onde os modelos previam a presença de uma companheira. O objeto, conhecido como Betelgeuse B, é muito mais fraco que a supergigante e permaneceu escondido em seu intenso brilho durante décadas.
Uma estrela escondida pelo próprio brilho
Encontrar uma estrela fraca ao lado de Betelgeuse é extremamente difícil. A supergigante é tão luminosa e extensa que praticamente domina as imagens obtidas pelos telescópios.
A existência de uma companheira, porém, já era suspeita há décadas. Variações periódicas observadas no comportamento de Betelgeuse levantaram a possibilidade de que outro objeto estivesse orbitando a estrela.
No final de 2024, os modelos indicavam que a possível companheira estaria em uma posição particularmente favorável para ser observada. Os astrônomos aproveitaram a oportunidade e apontaram o VLT para o sistema.
Utilizando o instrumento SPHERE, combinado com óptica adaptativa e técnicas avançadas de processamento, a equipe conseguiu reduzir o intenso brilho de Betelgeuse e revelar uma fonte de luz muito mais fraca ao seu lado.
A posição observada coincide com a prevista para a companheira, tornando este o melhor indício direto já obtido de sua existência.
Ainda serão necessárias novas observações para acompanhar o movimento do objeto e confirmar definitivamente sua órbita.
Uma companheira mais massiva do que se imaginava
As observações também sugerem que Betelgeuse B pode possuir entre duas e três vezes a massa do Sol, acima das estimativas anteriores.
Essa informação é importante porque estrelas em sistemas binários podem influenciar significativamente a evolução umas das outras. A interação gravitacional pode modificar a rotação, a perda de massa e diversos processos físicos.
No caso de Betelgeuse, a companheira pode contribuir para explicar parte da complexa atividade de sua atmosfera e algumas das variações observadas em seu brilho.
Isso não significa que ela seja responsável por toda a variabilidade da supergigante, que também apresenta pulsações, convecção e intensa perda de material.
E quando Betelgeuse vai explodir?
Betelgeuse é uma estrela massiva em estágio avançado de evolução e deverá terminar sua vida como uma supernova. Entretanto, a descoberta da companheira não significa que a explosão esteja próxima.
O famoso enfraquecimento observado entre 2019 e 2020 também não foi o início de uma supernova. Observações posteriores indicaram que material expelido pela própria estrela formou uma nuvem de poeira que bloqueou parte de sua luz.
A presença de uma companheira, porém, pode mudar os modelos sobre o futuro de Betelgeuse. A interação entre as duas estrelas pode influenciar sua perda de massa e, consequentemente, sua evolução.
Um mistério de quase um século
A possibilidade de Betelgeuse possuir uma companheira é discutida há cerca de um século. O avanço agora está na capacidade de finalmente observá-la diretamente.
Novas observações deverão determinar com maior precisão a massa, a órbita e as propriedades de Betelgeuse B, além de revelar até que ponto sua presença influencia a evolução da supergigante.
Por enquanto, uma conclusão já se destaca:
Betelgeuse, uma das estrelas mais conhecidas do céu, pode nunca ter estado sozinha.
A descoberta foi anunciada pelo Observatório Europeu do Sul (ESO) em julho de 2026 e apresentada em estudo publicado na revista Astronomy & Astrophysics.

